COLABORAMA NO VITRUVIUS

A descrição é animadora: dá a percepção de um passo importante no olhar sobre a cidade, onde reaproveitar e ressignificar têm um grande valor, e não apenas destruir e partir do zero. Diz o edital que: “o baixio de viaduto é um espaço culturalmente tido como residual, mas que conserva em si, devido à sua estratégica inserção urbana e à sua ampla superfície para aproveitamento, um grande potencial para se tornar área qualificada para encontros e para a realização de atividades ao ar livre, desde que tratado como objeto de requalificação urbana, o que se pretende alcançar com a realização deste concurso”.

Porém, na contramão de processos de ocupação de áreas residuais de sucesso – como o conhecido Projeto Cora-Garrido (2), que faz um trabalho social com esporte e cultura ocupando baixios de viadutos desde 2004, ano em que criou uma academia de boxe embaixo de um viaduto no centro de São Paulo –, o edital se restringe a arquitetos e urbanistas regularizados pelo CAU, exigindo como entrega um formato convencional e limitador de um Estudo Técnico Preliminar.

Essa postura não se abre para que cidadãos não especializados tecnicamente possam pensar a reutilização de tão frequentes estruturas no tecido urbano brasileiro. Também não é possível pensar em estratégias de ocupação dessas estruturas, ou seja, o desenho de um processo, e não um desenho somente técnico – um caminho de pensamento a ser utilizado para o processo de ocupação.

Instigados pela proposta do edital, mas não pelo formato sugerido, nossa equipe – formada por duas arquitetas e urbanistas, uma estudante de arquitetura, um artista brasileiro e outro espanhol – decidiu pensar uma estratégia de ocupação para os viadutos, selecionando, entre os propostos, o viaduto Engenheiro Andrade Pinto. A ideia seria desenhar um processo de ocupação conjunta, dos proponentes com aqueles que já ocupam o espaço e arredores, e com os que desejam ocupá-lo. Chamamos essa ocupação conjunta de “Colaborama”.

No viaduto Engenheiro Andrade Pinto há um tecido cultural existente, com atividades de artes visuais e literárias coordenadas pelo Projeto Escultórias. Visando a responder e a ampliar essas dinâmicas de uso, propusemos um processo que agregue novos valores aos que já existem, em conjunto com os usuários, articulando, reativando e democratizando o espaço; abrindo-o para novas possibilidades de uso.

A partir da combinação entre as dinâmicas locais e o conhecimento dos profissionais envolvidos neste projeto de (re)ativação de espaços públicos, acreditamos que este lugar poderia ter seu uso, significado e relevância para a identidade social e cultural do entorno expandidos.

O projeto se baseia na participação. Em um primeiro momento, propomos estabelecer um diálogo com a comunidade, afim de compreender as dinâmicas do espaço e perceber como a população se identifica com este. Algumas questões são levantadas e debatidas, como: qual a relevância deste espaço para a comunidade? Como podemos trabalhar juntos para ampliar as atividades do espaço? Que tipo de melhorias podem ser feitas no ambiente do viaduto, para torná-lo mais agradável, convidativo e interativo?

Os novos projetos de autogestão de espaços públicos mostram a importância da participação ativa da sociedade civil

Além dos benefícios na questão de segurança que bem conhecemos a partir do trabalho de urbanistas como Jane Jacobs, a participação cidadã é uma forma de geração de capitais intangíveis e de atividade cultural. Aliás, um processo de implantação baseado na participação ativa da população resulta em uma transferência de conhecimento de grande valor educativo.

A partir deste diálogo inicial, propusemos uma gama de possibilidades de construções, instalações e intervenções. Estes elementos têm como objetivo atrair o público para o espaço, retrabalhando seu significado e identidade para a comunidade, o transformando em plataformas de troca de ideias.

Nossa proposta funciona como um cardápio de tecnologias de ocupação: mobiliário urbano [arquibancada, bancos, mesas]; elementos lúdicos [estruturas de corda para escalar]; elementos verdes [jardins verticais e horizontais] e infraestrutura básica de ocupação [banheiros, casinhas de tamanhos variados para atividades diversas].

Uma premissa é que o projeto seja baseado na eficiência energética e construído com materiais que permitam que as intervenções tenham boas possibilidades de serem desenvolvidas em outros locais, com ênfase em contextos econômicos pouco favoráveis. Além disso, as soluções técnicas publicadas são sob licença Creative Commns 3.0, facilitando ainda mais sua reprodutibilidade. A equipe entraria em contato com administrações locais e estaduais para procurar recursos materiais públicos para usar nesse e outros projetos.

O conjunto de elementos que compõe o desenho apresentado é de teste, que propomos como construção coletiva e experimental, para conhecermos melhor o espaço, atores e potencial. Essa instalação processual guiará o projeto definitivo de ocupação do espaço.

É a partir da intervenção temporária que se fortalece o contato com a comunidade, por meio do mapeamento de recursos disponíveis (humanos, materiais, econômicos), articulação com atores locais, formação de um grupo gestor para coordenar a reativação do espaço e desenvolvimento de um sentimento de pertencimento.

A proposta é, portanto, uma metodologia de reativação de espaços públicos subutilizados de maneira colaborativa e autogerida, com três etapas: intervenção efêmera, projeto permanente, gestão/manutenção. A intervenção efêmera é entendida como uma ferramenta de atração das pessoas, mudança de relação e experiência do espaço e discussão de seu imaginário.

Com a participação de facilitadores, como arquitetos, produtores culturais, sociólogos, serão realizadas reuniões de cocriação com qualquer cidadão que esteja interessado em participar desse processo de construção coletiva do lugar. Um upgrade desse espaço antes subutilizado: um projeto de hardware e software, de infraestrutura e apropriação, de espaço e uso, desenhado coletivamente. Um projeto de um processo.

É importante ressaltar que projetos desse caráter já vêm tomando as ruas, praças e viadutos, demonstrando uma carência e uma vontade por parte da população de ter voz e poder deliberativo na gestão de sua cidade. No caso específico de Belo Horizonte, o projeto A Ocupação (3) está sendo desenvolvido desde as revoltas de julho de 2013, de maneira autogerida e coletiva, agregando diversos atores da cidade, com objetivos distintos, por uma causa comum. Outra referência de retomada dos espaços urbanos é o Parque Augusta, em São Paulo: movimento horizontal, plural, que luta pela preservação de uma das últimas áreas verdes do centro da cidade, em detrimento de sua privatização, verticalização e fechamento.

A questão que se mostra pungente é como pode se dar a relação entre o fazer e o usar a cidade: de que forma os cidadãos podem ter papel mais ativo na transformação de sua realidade, de que forma a distribuição do poder pode ser mais descentralizada e direta, de que forma o público e democrático podem voltar a ter seus papéis.

No final de janeiro foi anunciado o resultado do concurso. Sem o conhecimento das áreas, suas dinâmicas, necessidades e anseios dos moradores e frequentadores, podemos julgar que bons projetos serão implementados. Mas será que, na prática, serão boas respostas pras perguntas ainda desconhecidas? Por uma cidade construída em conjunto com quem de fato a vive, de maneira interdisciplinar e colaborativa.

nota

1
NE – Ver projetos vencedores: PORTAL VITRUVIUS. Projetos de baixios de viadutos. Projetos, São Paulo, ano 14, n. 158.02, Vitruvius, fev. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/14.158/5046>.

2
NE – Sobre o projeto Cora Garrido, ver: GUATELLI, Igor. Contaminações constitutivas do espaço urbano. Cultura urbana através da intertextualidade e do entre. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 094.00, Vitruvius, mar. 2008 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.094/155>.

3
A ocupação. Página no Facebook <https://www.facebook.com/AOcupacao?ref=ts&fref=ts&gt;.

sobre os autores

Elaine Terrin é arquiteta e urbanista. Atua na área de projetos culturais e de entretenimento, sendo fundadora do grupotrëma, grupo que atua desenvolvendo projetos de cenografia e design cultural.

Laura Sobral é arquiteta e urbanista, sócia da produtora cultural MUDA e do grupotrëma, de design cultural e cenografia. Pesquisa e realiza intervenções urbanas para a ativação e apropriação dos espaços públicos.

Marcella Arruda desenvolve uma pesquisa sobre a participação dos cidadãos na construção da cidade, a apropriação dos espaços públicos e a idéia de comunidade. É fundadora do MUDA_coletivo e integrante do escritório URBZ – user generated cities no Brasil.

Miguel Rodriguez (Mister) é arquiteto e desenvolve seu trabalho de produção cultural e artística no coletivo de origem espanhol basurama. Atualmente coordena a sede brasileira de basurama em São Paulo.

Raphael Franco é artista visual e educador. Em seu trabalho, Raphael explora a relação entre o ser humano, a natureza e o ambiente urbano. É membro fundador do Coletivo Cadeira Branca e do coletivo Novas Espécies.

Link

ANDAR DE BICICLETA É PERIGOSO? (por Robson Combat)

Link original: http://www.avidadebicicleta.com/2014/03/andar-de-bicicleta-e-perigoso.html?spref=fb

Meu filho de 6 anos está numa fase engraçada: quando vê uma coisa que não conhece, causando certo estranhamento, me diz “-pai, com isso eu não posso brincar, porque é perigoso, não é?”

Como é notório aqui, eu uso a bicicleta como meu principal meio de transporte. No início eu era “apenas” uma pessoa que usava a bike, mas com o tempo fui me envolvendo neste mundo e hoje sou um PROMOTOR da bicicleta como uma coisa que pode mudar a vida das pessoas e das cidades.

Isso me faz carregar uma nova responsabilidade: a de garantir que as coisas que falo são fundamentadas. Uma necessidade e uma preocupação.

Para garantir isso eu preciso pesquisar muito, cada artigo que escrevo aqui vem carregado de pesquisa e pesquisa, muito por isso dá tanto trabalho produzi-los.

Há alguns dias fomos contactados pela repórter de um jornal querendo “fazer uma matéria sobre o aumento de acidentes com ciclistas no trânsito, buscando personagens que tenham sofrido acidentes”. Esse contato gerou inúmeras pesquisas, tão relevantes que faço questão de dividir com vocês aqui.

Mas isso aconteceu há algum tempo, o que de fato reforçou esta necessidade foi uma “campanha” que propõe chamar atenção sobre como os motoristas “caçam” os ciclistas, exibindo suas “cabeças” como prêmio. Mas a temática é a mesma: “como bicicleta é perigoso!”.

Antes de tudo, tenho quase certeza de que a intenção – ingênua deles – é “nobre”, chamar a atenção sobre como os ciclistas são desrespeitados e são vítimas no trânsito. Porém, os números mostram exatamente o contrário, por mais que o nosso “senso comum” queira acreditar no contrário!
Você deve estar achando estranho, não é? Então vamos lá:

As primeiras pesquisas mostram que o número de acidentes com ciclistas no trânsito tem DIMINUÍDO, em números absolutos e relativos. Quando encontramos estes números – desconfiados – vamos mergulhando mais para saber se isso é verdade. Aí encontramos dados mais elucidativos ainda: durante a história, em cidades que tiveram aumento do número de ciclistas nas ruas, o número de acidentes de trânsito envolvendo ciclistas diminuiu!
Os dados mostram que a quantidade de acidentes de trânsito envolvendo pessoas em bicicletas é inversamente proporcional à quantidade de ciclistas nas ruas. Em outras palavras: quanto mais pessoas andando de bicicleta, mais seguro é andar de bicicleta.
Por que será, ora bolas?
Isso acontece – entre muitas coisas – principalmente por conta do aumento da visibilidade do ciclista nas ruas, pelo natural aumento da “ocupação das ruas” pelos ciclistas.

Vamos ver os dados para entender melhor (mas já previno, o artigo está grande, porém acho que está bem maneiro, vale à pena ler!):

Total de viagens de bicicleta POR DIA no Rio de Janeiro (capital):
1994: 77mil
2004: 217mil
2012: 420mil
Um aumento de 445% em 18 anos.

Total de acidentes com morte POR ANO no Rio de Janeiro (capital):
1994: N/A
2000: 1
2001: 3
2002: 6
2003: 9
2004: 21
2005: 21
2006: 33
2007: 20
2012: 20

Cruzando e normalizando os dados (transformando em viagens/acidentes/ano) vejamos isso num gráfico:

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Observe que nem é possível PLOTAR ambas as informações no mesmo gráfico, eu criei este formato para que isso ficasse claro.

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Observe aqui quem são as principais vítimas do trânsito: as pessoas a pé (pedestres)! E não se faz nenhum alarde sobre isso, devemos nos perguntar por quê?
Devemos também nos perguntar quem mata estes pedestres?

Perceba, cuidado ao analisar os dados: podemos olhar para eles e pensar: “nossa, como é perigoso andar a pé pelas cidades!”.
Mas observe que praticamente TODOS os acidentes fatais estão envolvendo veículos motorizados!!!!
Então a leitura correta deveria ser: “nossa, como permitimos que os veículos motorizados matem tantas pessoas e continuamos não fazendo nada?”.

Mais: percentuais sobre modais e acidentes os envolvendo:

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Observe aqui que a bicicleta é o único modal em que o percentual de acidentes é menor que o percentual de utilização.

Outro gráfico bastante elucidativo e esclarecedor:

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Em países com alto nível de uso bicicletas como meio de transporte a tendência do aumento de segurança é clara. Ou seja, quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro é andar de bicicleta.

Complementando com dados sobre fatalidades no trânsito, envolvendo vários modais:

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O aumento do uso de bicicleta no trânsito diminui não apenas a fatalidade dos acidentes envolvendo ciclistas, mas outros veículos também. Ou seja, trocando o uso de veículos motorizados por bicicletas, todos ganham.

Mais um que mostra que diminuindo o número de motorizados, diminui-se a fatalidade nos acidentes de trânsito:

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Isso nos EUA, para algum “espertinho” que queira dizer, “Ah, mas aqui não é Europa”.

Para mim os melhores dados e o melhor gráfico de todos:
Quantidade de uso de bicicletas X índice de fatalidade em acidentes com ciclistas

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Com esta visão, fica MUITO claro tudo que eu disse acima: quanto maior o uso de bicicletas e menor o uso de veículos motorizados, menor a taxa de mortalidade em acidentes envolvendo ciclistas.

Mas o mais interessante de tudo: logo abaixo, o percentual de pessoas que usam capacete em cada cidade. Observem que as cidades que tem menos fatalidade são as que os ciclistas MENOS usam capacete!

[...]
Sobre o uso do capacete, vale uma capítulo à parte

Eu estou aqui querendo mostrar – através de números e experiências – que andar de bicicleta não é perigoso, contrariando o “senso comum”.
Uma das atitudes que corroboram com a imagem de que andar de bicicleta é perigoso é a força que se dá à necessidade de uso do capacete para “aumentar” a segurança do ciclista no trânsito.

Em primeiro lugar, os dados deste gráfico acima derrubam TOTALMENTE esta teoria.

Em segundo lugar, capacete é usado para SITUAÇÕES E AMBIENTES POTENCIALMENTE PERIGOSOS, como por exemplo:
- competições de motocicleta (e até de bicicleta)
- motociclistas em qualquer ambiente (fragilidade + velocidade)
- competições de carros (hã, competições de carros? como assim, as pessoas andam de carro COM capacete?)

Então, quando se quer dizer que “tem que usar capacete para andar de bicicleta no trânsito” (em que se anda a uma velocidade média de 15Km/h), está se querendo dizer – subliminarmente – que aquilo é perigoso.
Mas não é estranho que andar de carro seja tão perigoso a ponto de os pilotos os usarem, mas não a ponto de os motoristas precisarem usar no trânsito?

Não é estranho nada!

Existem estudos que mostram que o índice de fatalidade com motoristas diminui absurdamente se eles usassem capacete, mas……… já pensou o que seria de nossa sociedade se se descobrisse que andar de carro é tão perigoso que se precisa usar capacete?
Socorro!
A venda de carros, ia cair vertiginosamente!
Então não interessa divulgar esta informação! Vamos ficar quietinhos, né?

Eu imagino as pessoas pensando “nossa, que maluquice!”. Eu também acho!

E sabe qual é rebordosa – em nós ciclistas urbanos – desta “crença” de que capacete dá “segurança” ao ciclista? Quem opta por não usar capacete tem de ouvir diariamente frases do tipo:

  • “Viu só, o cara é o maior irresponsável, andando na rua de bicicleta, e ainda por cima SEM capacete. No fundo se um cara destes sofre um acidente não tem como reclamar, não preza pela própria segurança, porque eu vou ter que prezar pela segurança dele”. Pois é, não é piada sem graça, eu já ouvi isso algumas vezes. :-(
  • “eu vejo esse cara passar por aqui sempre, ele é um ciclista consciente, usa capacete, anda sempre pelo cantinho da rua, não atrapalha nenhum carro”
  • “cara, sai da rua, vai pro parque, eu tô aqui trabalhando e você passeando, nem equipamento de segurança usa”

Um adendo ao artigo: depois de publicar, algumas pessoas me questionaram sobre minhas considerações a respeito do uso do capacete.
Deixe-me corrigir uma impressão que parece ter passado aqui: não estou dizendo que usar capacete não é seguro, nem estou fazendo apologia ao seu não-uso. As considerações acerca do capacete aqui são para chamar atenção sobre a “cultura do medo” e sobre a ideia de que “só quem usa capacete é que se preocupa com a segurança”.
Isso é que está sendo questionada aqui, não o seu uso, ok?
Eu mesmo uso capacetes em alguns ocasiões, em outras não. Uso capacete em meu filho.

Então repito: o ponto não é o questionamento sobre a importância dele. Acho que cada um deve usar ou não, de acordo com suas opções.

[...]

Então , depois de tudo isso, imagino que alguém pense: “Bah, mas você está falando só de números, quero ver ali, no dia a dia se não é perigoso, eu não encaro!”.

Vou então citar uma coisa que vivi há alguns anos:
Eu estava viajando e conheci uma moça de Israel. Como todo brasileiro que sabe – através “das notícias” – que “Israel é um lugar que tem homem bomba, tiroteios, guerra, atentados etc.” indaguei: “-Nossa, como é viver num lugar tão perigoso?”.

Ela me olhou muito assustada e disse: “-Que pergunta estranha, você não vive no Rio de Janeiro”?

Eu desci então de minha soberba e percebi que essa imagem da insegurança e do perigoso é construída de uma forma muito distante da realidade, normalmente através da mídia que só relata o desespero. Ou seja só quem não vive aquela realidade é que acha que ela é perigosa, é a imagem da realidade vista através da tela quadrada.

A moça me disse que o país não é uma guerra, que tem alguns locais e casos isolados de violência, que o povo de Israel mesmo nem sabia desta imagem que a gente tinha de lá, da mesma forma que eu não sabia que eles tinham a mesma imagem do Rio de Janeiro!

A mídia não “é má”, mas quando ela relata alguns casos de acidentes com bicicleta, quem está apenas olhando, imagina que quem anda de bicicleta no trânsito é um aventureiro-louco-suicida-que-não-merece-mesmo-viver. Mas pensa isso, porque não está ali vivendo a realidade, está vendo uma parte muito muito muito muito pequena dela, só que – como não vê outra – passa a crer que TODA aquela realidade se resume a isso.

Se fosse só a imagem já não seria muito bom, mas sabe qual é a principal rebordosa disso? A atitude das pessoas que acham que viram um programa de televisão e já sabem tudo sobre “os perigos de andar de bicicleta no trânsito”. Começam a andar na rua abordando os ciclistas, falando:

  • “sai daí maluco, quer morrer? vai prá ciclovia! aqui não é lugar de bicicleta!”
  • tem os responsáveis: “você é um irresponsável, andando ‘no meio’ da rua, quer causar um acidente?”
  • tem os bonzinhos: “camarada, você é um cara maneiro, sai daí, vão acabar te atropelando!”
  • tem os preocupados: “meu amigo, pára com isso, você vai acabar se machucando esse trânsito é muito louco”
  • tem os irônicos: “se passar na minha frente me atrapalhando eu passo por cima”
  • tem os legalistas: “cara, vai ler o código de trânsito, lugar de bicicleta é na calçada” (não é piada, aconteceu comigo…)
  • tem de tudo, vocês nem imaginam!

Mas sabem quantos recebem estas “informações” e pensam “nossa, eu tenho mesmo que mudar de atitude enquanto motorista, tenho que passar a respeitar os outros, principalmente ciclistas, coitados!”?
Nem eu sei! Porque eu NUNCA vi esta atitude! Nem conheço quem tenha visto, nem vi de  amigos que andam de bicicleta e dirigem; ando com eles em seus carros e os vejo falando as frases lá de cima, nunca essa daqui.

Então posso lhes garantir – baseado em percepção, experiência, estudos e pesquisas – que a segurança de todos no trânsito não está no medo e na segregação (porque isso só favorece quem tem interesses escusos), tem que partir para a mudança de comportamento.

Não sabe como começar? Ocupe as ruas, jogue o medo infundado fora, aja, mostre que as nossas ruas não são só das pessoas que estão dentro dos carros!

Os gráficos e muitos dados foram cedidos pela TRANSPORTE ATIVO.

Até o próximo…

Clique aqui para acessar o link original.

Ocupações culturais em São Paulo, Brasil

Repostado do site do Transnational Dialogues

Em meados de fevereiro coletivos de artistas ocupou para finalidades artísticas uma casa pertencente à União, tombada pelo Patrimônio Histórico, na região da Consolação, em São Paulo. Desde então várias atividades culturais, debates vem acontecendo na Casa Amarela, como ela ficou chamada. Arte-educadora Malu Andrade conversei com Dorberto Carvalho, um dos idealizadores do movimento para saber mais sobre o movimento, o que pretendem e como ele vê a integração com os outros movimentos que também pensam a cidade artisticamente.

In February 2014, a group of artists occupied for artistic proposes an abandoned house belonging to the Federal Government at Consolação in downtown São Paulo. Since the beginning of the occupation several artistic activities and seminars have been taking place at the house, now called Casa Amarela (the Yellow House). Art educator Malu Andrade has interviewed Dorberto Carvalho, one of the leaders of the occupation movement, on how he sees Casa Amarela in the context of other cultural and civil movements that are now taking place in the city. (English version now available)

Malu Andrade: Você pode explicar em linhas gerais o que é o Movimento de Ocupação de Espaços Públicos? Os Ateliês Compartilhados. Quem participa? Quando surgiu?
Dorberto Carvalho: 
Este movimento surgiu a 3 anos atrás. Surgiu à partir da Cooperativa Paulista de Teatro e de coletivos de teatros. Em cima da experiência de coletivos surgidos com o Fomento, que já ocupam espaços na periferia da cidade para suas produções. Estes coletivos já tem uma filosofia, um conteúdo ideológico de como relacionar seu conteúdo artístico com a cidade. A partir desta concepção surgiu o movimento. A gente começou a levantar outras experiências como por exemplo Alemanha Oriental, Londres e Paris. O Ateliê Compartilhado vem muito desta experiência destes grupos europeus e também destas ocupações destes grupos de teatros na periferia que passaram a compartilhar outras linguagens, na verdade isto é muito mais rico do que uma ocupação apenas de coletivos de teatro. Nestes anos a gente vem nesta discussão do que seriam estes Ateliês Compartilhados e agora foi chegando o pessoal de música, de dança, de cinema, artes visuais. Quando a gente ocupou aqui, há 15 dias, também outros coletivos foram se juntando, como o pessoal do Parque Augusta ou do Buraco da Minhoca.

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Então existe então um diálogo com outros coletivos que estão pensando a cidade como Parque Augusta, Movimento Baixo Centro?
Tem um diálogo com este pessoal todo e com coletivos anteriores que estão mais na periferia. O foco está no centro, a visibilidade aqui é maior. A gente tem uma visibilidade na imprensa que por exemplo um coletivo da periferia não tem, e também porque este quadrilátero que pega a consolação até a Augusta está no centro da especulação imobiliária. Centro do interesse econômico e centro de um corredor cultural, que pega do Belas Artes até a Roosevelt. Estas lutas deste corredor tem algo em comum, principalmente dos coletivos da praça Roosevelt, que resinificaram este espaço e vem sendo encurralados pela alta dos preços. A ocupação da Casa Amarela fica no meio deste angu todo, desta luta política, artística e cultural.

No site de vocês citam o caso da Luz, o governo criou vários aparelhos culturais na região, mas trata-se de uma política extremamente higienista porque não dialoga com o entorno com a cidade. Como você acha que estes coletivos, desde a Roosevelt, passando por vocês, Parque Augusta, Baixo Centro, podem ajudar a não acontecer a mesma coisa do que aconteceu na região e como isto interfere na especulação imobiliária? Por que é uma faca de dois gumes, os artistas ocupam “revitalizam” o lugar e a especulação cresce os olhos. Como fazer esta resistência?
Eu acho que esta ocupação da Casa Amarela se dá num patamar mais avançado da luta política, não porque somos melhores, mas porque estamos surgindo em cima do acumulo da luta dos que já fizeram atrás de nós, então por conta desta luta eu acho que nós temos a possibilidade de colocar a discussão em outro patamar. Quando colocamos esta questão do que eles chamam de “revitalização” do espaço, da cidade – não só no Brasil mas no mundo inteiro -  constatamos que o poder publico não anda conseguindo dar respostas concretas para os problemas da cidade, então uma gestão compartilhada, uma auto gestão, uma gestão de artistas, pode colocar o debate de ocupação de espaços públicos com projetos artísticos, de devolver estes espaços para a cidade, em outro patamar, que não é no patamar institucional. Este debate não é novo, o que queremos fazer é recolocar esta discussão. Só para usar uma expressão do prefeito Haddad “ a cidade que queremos”, a cidade que queremos é uma cidade de portas abertas, de diálogo com a cidade, ocupação de espaços ociosos, inúmeros; nós temos muitos lugares mapeados.

Você comentou da via institucional, vocês dialogaram com prefeitura para esta ação? Existe um acordo com a prefeitura no sentido de permitirem esta ocupação?
Não existe acordo com a prefeitura, existe uma conversa. Um espaço isolado, sem articulação política, só nós aqui, ou só o parque Augusta, ou só outro sozinho,  não vai ter voz na cidade. Para ter uma voz contundente tem de ter uma ação articulada, mesmo entendendo as variantes ideológicas de um movimento para outro, no fundo estamos lutando pela mesma coisa: uma cidade aberta, que contemple todos os seus cidadãos. Só a Casa Amarela não vai resistir, embora eu diga que mais do que uma articulação política forte, o apoio da população da rua é o mais importante. A população tem nos dado apoio, liberaram wi-fi, nós projetamos filmes nos prédios, a gente tem diálogo com este entorno. Nós não somos inimigos da prefeitura, somos parceiros da prefeitura, muitos votaram no Haddad, acreditam que esta gestão seja muito mais favorável à cultura, e temos dialogado sim, dialogamos com a ministra Marta Suplicy em Brasília, falamos da pretensão desta casa em junho do ano passado. Protocolamos um pedido de concessão de espaço.

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E vocês obtiveram esta concessão ou foi na base da ocupação mesmo?
Não tivemos, tivemos 2 respostas do ministério da Previdência Social, dizendo que não poderiam ceder a casa sem ônus, nós não entendemos o que seja sem ônus, se ele quer vender uma casa de 10 milhões para um movimento de artistas, ou mesmo pedir um aluguel que gira em torno de uns 40 mil…então a gente ocupou, mas não segue a lógica da ocupação de moradia, embora nós dialoguemos muito bem com este movimento. Eu mesmo participei da primeira ocupação da cidade de São Paulo do regime militar, em 1983, eu venho do movimento de moradia. Várias pessoas daqui são artistas ligados ao movimento. Nós só temos proximidades com eles, mas é diferente, é artística, tem como objetivo cumprir outras necessidades da cidade.

No Brasil é algo que você não vê mesmo, ocupações culturais. Vocês são os primeiros? Você tem conhecimento disto?
A gente não tem a pretensão do pioneirismo, mas nestas dimensões e neste lugar, o coração da especulação imobiliária, é única. Nós queremos abrir o debate para que ocupem outros espaços. Nossa sobrevivência está ligada à ocupação de outros espaços.

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Na parte prática da ocupação, quem quiser pode chegar? Pode propor atividades para a Casa?
É livre, as únicas exigências são acesso livre à qualquer público e ser gratuita, eventualmente o pessoal passa o chapéu para manutenção do espaço.

A BATATA PRECISA DE VOCÊ!!!

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batata_06Ano novo, novo ciclo e novas colaborações no ar!!!

Desta vez estou me envolvendo no projeto “A Batata precisa de você”, idealizado pela arquiteta e amiga querida Laura Sobral. A idéia é juntar pessoas que habitam, trabalham e/ou transitam pelo largo, para ocupar e utilizar o espaço popularmente conhecido como “deserto da batata”.

Após mais de 5 anos em reforma, o resultado que a prefeitura apresentou do nosso querido Largo da Batata extremamente decepcionante, beirando o inaceitável. Apenas uma grande extensão de concreto, com meia dúzia de ilhotas de grama seca e árvores com manutenção visivelmente negligenciada, sem qualquer espaço para descanço, lazer ou apenas estar.

Por isto, a idéia de se desenvolver atividades de diversos tipo no Largo (shows, jogos, performances, rolês e concertos de bike) já têm surtido um efeito bastante positivo e após algumas semanas de atividades as 6as feiras tem sido marcadas por uma reunião adorável de jovens, crianças e adultos.

Tive oportunidade de participar das atividades da última 6a feira e adorei. Iniciamos a ocupação por volta das 16h, debaixo de um sol escaldante e ficamos lá até as 2 da manhã! O ambiente árido do “deserto da Batata” tornou-se em uma agradável praia paulistana, que recebeu jogos de frisbee, amarelinha, futebol, vôlei, mini-oficina de bike, jam session, roda de conversa, pique-nique, entre outros.

NESTA SEXTA TEM MAIS! VAMOS OCUPAR E TRAZER VIDA À BATATA!!!

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8º LIVRO LIVRE CPTM

Recentemente tive oportunidade de trabalhar junto com o coletivo MUDA Práticas, no desenvolvimento do projeto 8º Livro Livro da CPTM. Ao todo, 17 bibliotecas foram instaladas em 17 estações, tais como Mogi das Cruzes, Francisco Morato, Itapevi, Vila Olímpia, Grajaú, Brás, Júlio Prestes, entre outras.

Confira o vídeo abaixo, feito pelo pessoal da Cranio Filmes. Valeu time!!!

Screen shot 2013-11-26 at 00.57.21https://vimeo.com/80023196

 

Nós da MUDA queremos agradecer profundamente a Maria Salete Zandoná, que nos conduziu nesse projeto com segurança e tranquilidade e à Juliana Venâncio que esteve sempre presente com seu apoio. Sem elas esse projeto de sucesso teria sido impossível.

Aos funcionários da CPTM que sempre foram de uma gentileza total para conosco e a nossa equipe.

E também a nossa equipe-magia, que fez com que tudo rolasse super bem:

Elaine Terrin
Fabio Figueiredo
Heloísa Sobral
Laura Sobral
Libiane Ribeiro
Marcos Mauro
Mister Basurama
Raphael Franco
Rodrigo Machado

contadores de histórias:
Ailton Guedes
Aline Binns
Carol Portella
Fernanda Machado
Inayara Samuel
Jorge Peloso
Manoela Rangel
Marita Prado
Livia Albano
Monica Augusto
Monika Tognollo
Paula Klein
Penélope Martins
Suelen Ribeiro
Tuane Vieira

facilitadores e supervisores:
Adriana Areco
Ana Malavazi
Barbara Florencio
Cauê Patucci
Carol Menegatti
Debora Romancini
Diana Toloza
Fábio Jara
Fábio Magalhães
Fernando Ramos
Kalindi Devi Dasi Lopes
Lázaro Lima
Leo Bianchini
Leonardo Versolato
Miguel Crochik
Nayana Fernandez
Pedro Doca
Pedro Paulo Gasparini Rosa
Renato Brizzi
Stefanie Mattern

construtores e montadores:
Adriano Chaves
Alexandre Ribeiro-Alemão
Andrea Alves
David Goldberg
Fabio Jara
Fabio F. Magalhães
Ricardo Madeira

fotos:
Angela Leon
Daniele Queiroz
Hugo Palotto

filmagem:
Conrado Vidal – Crânio Filmes

produção grafica:
Tatiana Alves – Fusão Impressão Digital

transporte:
Massao – Transmiura

Mal podemos esperar pela próxima vez de nos juntarmos para fazer acontecer outro projeto tão bacana quanto esse!